São Paulo e Real Madrid em 92; ou Vítor, o Domador

 Futebol do Pretérito

O Troféu Ramón de Carranza contou com quatro equipes: Cádiz, PSV, Real Madrid e São Paulo

Por: Alessandro Caldeira


A
ssim como muitos estão fazendo, também decidi assistir a alguns jogos durante a quarentena e expressar algumas impressões sobre a partida a qual acompanhei. No entanto, não estou escolhendo nenhum campeonato específico, o critério é apenas um: partidas que se tornaram clássicas ou, então, aquela que eu sinto ser interessante.

Um dos primeiros jogos que assisti, então, foi a final entre Real Madrid x São Paulo pelo Troféu Ramón de Carranza em 1992, uma espécie de amistoso com cara de competição em tiros curtos: semifinal e final, onde o campeão levava o troféu de mesmo nome.

O torneio é realizado desde 1955 na cidade de Cádiz, promovido pelo time local, o Cádiz FC. O Atlético de Madrid é o maior campeão dessa competição com oito conquistas.




O
 time comandado pelo saudoso Telê Santana vivia em estado de graça, porque antes da conquista do torneio Carranza, o tricolor havia sido campeão da Libertadores contra o Newell’s Old Boy em junho de 1992 e, também, ocorria a vitória diante do Barcelona por 4 a 1, mas pelo Troféu Tereza Herrera, em La Coruña).

O São Paulo iria enfrentar uma equipe espanhola que contava com o zagueiro Hierro, o atacante chileno Zamorano e a maior referência técnica, o meia tcheco Prosinečki.

Este último, inclusive, foi o jogador que mais deu trabalho à defesa tricolor, sobretudo nos primeiros minutos de partida. Com boas movimentações e apoios para receber a bola e ser o dono da equipe com a sua privilegiada desenvoltura para criar chances, foi o principal criador de jogadas dos Merengues. 


Prosinečki, a finta em palhinha

Com um jogador como o camisa 10 tcheco, o Real Madrid acionava seu ataque rapidamente, ora verticalizando, ora jogando pelos flancos, de preferência pelo lado direito com o jogador Llorente.

É importante ressaltar, aqui, que a década de 90 foi assinalada por uma marcação intensa já que a maioria das equipes marcavam individualmente o adversário, isso exigia uma concentração e qualidade física diferenciada para suportar os 90 minutos de jogo. 

E esse aspecto foi o destaque do São Paulo, a defesa que era composta por Vitor, Adilson, Ronaldão e Iván esteve muito bem quando se encontrava em apuros, principalmente  com o seu lateral-direito, Vitor.

Vitor foi o pilar da defesa, com ótimas intervenções, anulando as jogadas pelas laterais do Real Madrid, o que acabou sendo um problema para os espanhóis, uma vez que as principais jogadas estavam sendo pelos lados.

Por isso, para escapar da marcação, o time espanhol fazia alguns lançamentos dos quais, também, não surtiram efeito. Até que a equipe começou a optar por jogar na direita, na qual localizava-se Llorente, provavelmente para escapar de Vítor, porém, também não funcionou.

Nem Prosinečki, o jogador mais criativo da equipe cuja qualidade foi comparada a Rivelino por Juarez Soares suportou a ótima atuação defensiva dos visitantes, desaparecendo do jogo gradativamente como a um animal adestrado, pois era isso que Vítor fazia a quem ousasse atacar pelo seu lado: domava a todos.

Com a segurança de seu lateral, o São Paulo podia desfrutar de seus jogadores de criação, Palhinha, Raí, Müller e Elivelton. No entanto, lembra do trecho acima sobre a marcação nos anos 90 ser intensa? O São Paulo fez uso disso para pressionar a saída de bola do Real com o goleiro Juanmi que se atrapalhou e entregou de graça para que o tricolor pudesse abrir o placar com Elivelton.

O primeiro tempo, mesmo com a expulsão do atacante Zamorano, o jogo do São Paulo foi muito mais de controlar as ações do Real Madrid do que partir para o ataque, talvez pelo fato de que a equipe pudesse estar se preservando para apresentar seu verdadeiro futebol no segundo tempo.

Isso porque, o Real Madrid como se tivesse tomado consciência de que estava com um a menos, sofreu com as descidas do São Paulo, e o tricolor paulista entrou na defesa espanhola de várias maneiras.

Primeiro através de um lançamento onde Raí teve toda calma para matar a bola no peito e fazer com que ela caísse tranquilamente na sua frente, se livrando do zagueiro e tocando para o gol.

Depois disso, a defesa do Real Madrid, enfim, mostrou o quanto estava perdida e sem sintonia ao ver a equipe de Telê Santana avançar com tamanha facilidade. Elivelton pegou a bola pela esquerda e foi trazendo para dentro da área e chutou fraco, com sorte, o goleiro Juanmi, símbolo das más execuções defensivas dos Merengues, soltou a bola nos pés de Muller que só empurrou.

Com a liberdade que o São Paulo foi encontrando, com o sistema defensivo adversário cada vez mais cristalina para os jogadores, o time pôde ter, enfim, seu estado de graça e harmonia trocando passes rápidos no meio campo, com todos os jogadores se aproximando da bola e transformando o jogo num verdadeiro espetáculo.

Para coroar a exibição, ainda deu tempo de Muller sacramentar o jogo abusando, mais uma vez, dos equívocos da marcação madrilenha e com um excelente recurso técnico para deixar com que a bola apenas se projetasse à sua frente, apenas tocou por baixo do goleiro Juanmi.

O jogo acaba com um notável domínio são paulino que ao final dessa temporada, foi campeão mundial frente ao Barcelona de Cruyff.



 Os quatro gols do São Paulo

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